Alessandro Lúcio

Alessandro Lúcio
Profº Historiador

domingo, 26 de dezembro de 2010

Enfim, o Natal

Chegamos ao mês de dezembro, sinônimo de festa, de luzes de comemoração, de confraternização. Geralmente, desde o início do mês, casas são pintadas, lojas são enfeitadas, o comércio ferve, os sinos dobram, a cidade fica iluminada.
Mas, o que está acontecendo? Onde estão às cores, os sinos, os enfeites, a iluminação? Estamos perdendo os hábitos, adquiridos há anos, ou, os anos não são mais os mesmos? Ou, os hábitos que mudaram? Outro dia assisti um comentarista da TV anunciar em rede nacional que “papai Noel é pedófilo”, devido o fato de gostar de abraçar e presentear criancinhas. Nas escolas estão tentando abolir Monteiro Lobato, por acreditarem que suas obras são racistas e preconceituosas, só porque Tia Nastácia é preta, empregada e sobe em árvore como “macaca”. Não podemos mais cantar “atirei o pau no gato” porque é ecologicamente incorreto. Os valores estão se invertendo ou se perdendo? Como diria Jô Soares “Quanta bobagem”.
As confraternizações lotam restaurantes, bares e lojas. Mas, o mais importante não é mais o ato de se confraternizar, de se regozijar com parentes e amigos, mas sim, “que presente vou ganhar?”, como diria o poeta, estamos coisificando as pessoas e personificando as coisas.
Lembrando sempre que natal é sinônimo de nascimento, Cristo mudou o mundo, dividiu o tempo no antes e depois; gostava mais de presentear, do que ser presenteado; gostava de abraçar as crianças; era um exímio leitor (conhecia as escritura como ninguém), valorizava as pessoas e não as coisas.  
É dezembro, ainda é tempo, a iluminação, as cores, os enfeites são para Ele; os hábitos e costumes têm em seu bojo, uma significância especial. Presenteie, abrace, confraternize, o “outro” é tão importante, quanto o “eu”. Valorize o aniversariante, torne seu natal uma verdadeira festa, senão logo aparecerá alguém dizendo que isso também não é importante. Feliz Natal. 
Por Alessandro Lúcio Melo
Historiador e Professor Universitário
e-mail:alessandrolucio2009@hotmail.com

Publicado no Jornal Itacoatiara em Pauta, 25 de dezembro de 2010.

sábado, 11 de dezembro de 2010

Quantidade ou Qualidade?

Estamos chegando a mais um fim de ano letivo, hora de somarmos as notas, visualizarmos os aprovados, lamentarmos os reprovados e analisarmos a educação.
Para os brasileiros, a educação é a chave para o desenvolvimento. Segundo pesquisa Ibope/CNI: 6 entre cada 10 entrevistados acha que a baixa qualidade do ensino vai prejudicar o desenvolvimento  do país e crê que é necessário um investimento maior em educação para que o Brasil se torne de fato um país desenvolvido.
Dados da pesquisa destacam questões importantes, dentre as quais, a qualidade do ensino público. Desde 1996, com a criação da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional 9394/96, passou a se associar a qualidade da educação com os índices de aprovação, pois os índices de reprovação eram muito altos e isso não só retardava o ensino, criando uma legião de repetentes, como inflava as despesas do governo com esse alunado.
É necessário entendermos o contexto antes de 96, para compreendermos as causas da repetência. Até esse período menos de 25% dos professores tinham nível superior, outros sequer tinham concluído a educação básica, sem falar na estrutura física da escola que era precária e na chamada “sala multiseriada”. É essencial percebermos que a educação mudou, pois os contextos também mudaram. A realidade hoje é extremamente diferente.
Atualmente, a Escola recebe seus recursos financeiros de acordo com a quantidade de alunos matriculados e índices do Ideb são associados a alunos aprovados no fim do ano. Criou-se o mito da aprovação automática, ato não respaldado pela constituição, mas que deixa margem para interpretações equivocadas, pois definições ainda estão em discussões nas conferências realizadas em todo o país.
 Não existe mais a legião de repetentes, entretanto a cada dia cresce a massa de analfabetos funcionais (75%) no Brasil; alunos que estudam, mas não aprendem. Precisamos hoje de qualidade e não somente de quantidade, para isso são necessárias três coisas: investir, ensinar e avaliar, só então poderemos nos regozijar, a cada fim de ano, com qualidade e não somente com quantidade.

Publicado no Jornal Itacoatiara em Pauta, 11 de dezembro de 2010.

sábado, 4 de dezembro de 2010

Novos números, velhos problemas.

Saíram os primeiros números do censo 2010 e constatamos que a população brasileira mudou; somos, atualmente 190. 732. 694 habitantes, na sua maioria mulheres. Aliás, muitas mulheres estão comandando os lares brasileiros. O acesso da mulher ao mercado de trabalho também foi fator determinante para que diminuísse a taxa de natalidade no Brasil. Há pouco tempo atrás, a taxa de fertilidade era  mais de 5 filhos por mulher, isso também se dava graças a demanda de mão de obra no campo. Com o avanço da urbanização a estrutura da população mudou a taxa de fertilidade baixando para um pouco mais de dois filhos por mulher, tendência que provoca uma gradativa diminuição dos investimentos em educação e aumento dos investimentos em saúde.
A saúde do brasileiro realmente melhorou, os investimentos em medicamentos, especializações médicas, entre outras formações, fizeram com que a expectativa de vida aumentasse, a média de vida do brasileiro hoje é de 73, 17 anos, índice muito próximo ao de países de primeiro mundo, que chega a 80 anos. No Brasil, há pouco mais de 10 anos atrás não chegava a 65.  
Temos 5.565 municípios, sendo 62 no Amazonas Estado com 3.350.773 habitantes. Itacoatiara possui hoje uma população de 86. 840 habitantes, somos o segundo município com maior número de habitantes do interior do Estado, só ficando atrás de Parintins com 102.066. No censo 2000 ficávamos atrás de Manacapuru, que atualmente ocupa a terceira posição com 85. 144.
Agora, com os números em mãos é necessário organização para que os indicadores econômicos reflitam nos indicadores sociais. Com mais idosos é necessário melhoria constante na área de saúde, hospitais verdadeiramente preparados, estruturados e organizados, com a diminuição dos índices natalinos, esperamos escolas mais estruturadas  e  melhoria na remuneração salarial dos trabalhadores da educação, condizente com  importância de sua função para a sociedade. Os índices estão bem melhores, entretanto, a média muitas vezes mascara a realidade. É necessário visualizarmos as pessoas para enfim, celebrarmos os novos números e não os velhos problemas. 
Publicado no Jornal Itacoatiara em Pauta, 04 de dezembro de 2010.

República, governo do povo e não somente de alguns.


Dia 15 de Novembro tivemos um feriado nacional de extrema importância, a Proclamação da República. O termo República é originário do latim, significa “coisa pública” ou “governo do povo”. Instituída em 15 de novembro de 1889, a República no Brasil, sempre foi contraditória e inconstante, inclusive pela forma como foi promulgada. Começou com um golpe militar sem a participação do povo brasileiro, que nem se dava conta do que estava acontecendo, muitos chegaram a pensar que era um desfile cívico; como relata Aristides Lobo, o povo assistia a tudo “bestializado”. Como conseqüência, ou não, o primeiro presidente republicano do país renunciou dois anos depois.
A República sempre esbarrou em forte restrição e limitação, dificultando seu progressivo desenvolvimento. Na chamada República do café com leite, o governo se prende aos estados de São Paulo e Minas Gerais, os demais estados são deixados de lado ou mesmo esquecidos. Em 1930, a história do Brasil foi marcada por outro golpe de estado, o qual colocou Getúlio Vargas no poder, após ter perdido a eleição de 1929. Em 1937 aconteceu um “golpe dentro de outro golpe”, iniciando a ditadura varguista no Brasil que durou até 1945, a população teve seus direitos limitados dentro de um governo republicano que se dizia “do povo”, sem falar do golpe militar (1964-1985) que por mais de 21 anos cerceou a liberdade do povo brasileiro.
 Vivemos um período conhecido como Nova República. Já tivemos um presidente que foi eleito indiretamente e outro que foi destituído, acusado de corrupção. Apesar de estarmos comemorando 121 anos de República no Brasil, faz somente 18 anos que não há interrupção indevida no poder executivo, (desde a posse de Itamar Franco em 1992), ou seja, agora é que estamos atingindo a maioridade da Nova República do Brasil, esperamos realmente que esse amadurecimento consolide o processo republicano do país, refletindo de fato na melhoria dos setores básicos, como saúde, segurança e educação; que o governo seja realmente, do povo e não somente de alguns.    

Publicado no Jornal Itacoatiara em Pauta, 26 de novembro de 2010. 

Todo amazonense é índio? Ignorância deles!

Vale lembrar que “índio” é um conceito criado pelos europeus. Quando Cristovão Colombo “descobriu” a América, pensou que tivesse chegado às Índias, daí chamando os nativos de índios. Quando um “especialista” de outra região fala sobre a Amazônia ou sobre os amazonenses dá a impressão que todos somos iguais, homogêneos, como os índios, que segundo a ignorância deles é retratado nesse perfil. Na realidade, os índios não constituíam um todo homogêneo, variavam e variam em altura, cor de pele, corpulência, linguagem, religião, organização política e administrativa e principalmente, de uma diversidade cultural muito grande e peculiar.
Muitos ainda pensam que aqui onça anda na rua, e que na realidade, rua, são caminhos no meio do mato. Muitos não sabem nem que o Acre existe. Quanta ignorância.
Desde a eleição de Dilma Roussef, vejo e leio “analistas” afirmando que o Amazonas foi o grande celeiro de votos da Presidenta porque aqui a população vive de bolsa família, é culturalmente deficiente, extremamente pobre e sem acesso a informação. De forma leiga, equivocada e partindo do princípio do senso comum, tentam novamente homogeneizar o povo amazonense, como se aqui não houvesse diferentes classe sociais, como se todos pertencêssemos à periferia geográfica e econômica do país.
José William Vesentini (2007), um dos maiores geógrafos do Brasil na atualidade afirma que “A Amazônia seria potencialmente a região do futuro, a área que atualmente conhece o maior crescimento demográfico, com intensas transformações” em relação às outras regiões, é a economia que mais cresce no país. Presencia-se gradativa ascensão no setor educacional, com todos os professores com notebooks como ferramentas de trabalho.  Estamos no coração da floresta, mas conectados com o mundo globalizado e onde o sistema de informação de rádio, televisão e jornais não deixam nada a desejar a qualquer região do país. Além de estarmos no estado que mais investe em saúde no Brasil.
Os Estados do Rio de Janeiro e Minas Gerais, por exemplo, também deram larga vitória a Dilma, entretanto, segundo esses mesmos analistas, lá foi por concepção política. Por que aqui seria diferente?  Se analisarmos a densidade demográfica de Minas e Rio de Janeiro, ou mesmo São Paulo, onde Serra venceu, a proporção de beneficiários dos programas do governo federal são muito maiores que a do estado amazonense. 
Há de se reconhecer que a política adotada pelo presidente Lula e os programas efetivados no Estado foram fundamentais para a vitória de Dilma. No entanto, a dificuldade de locomoção, a distância de alguns municípios em relação à capital e a difícil logística que envolve o nosso estado de proporções continentais, deve ser levado em consideração, quando se faz qualquer análise em relação ao Amazonas, para que equívocos crassos como esses possam ser evitados no futuro, afinal, é ridículo analisar o povo do Amazonas com a mesma visão de Colombo, há mais de 500 anos atrás, podemos até ser índios; mas ignorantes, são eles.
Publicado no Jornal Itacoatiara em Pauta, 12 de novembro de 2010.

A eleição da baixaria

Agressões verbais, agressão física, dossiês, calúnias, direito de resposta, farsa. Esses são os discursos que marcam a campanha no 2º turno para presidente. Biografia, anti-biografia, o que é verdade? O que é mentira? Os dois candidatos se engalfinham nos debates falando o que fizeram ou que deixaram de fazer. Mas e as propostas? Estas foram esquecidas, deixadas de lado, colocadas em segundo plano.
As emissoras de TV, também, lutam para mostrar o melhor foco, o melhor ângulo, a verdade dos fatos; mas que verdades? No dia seguinte tudo é desmentido, fica claro a preferência da imprensa, dos meios de comunicação por determinado candidato ou candidata. E a isenção? E a imparcialidade? Aos candidatos foi garantido por lei o direito de se mostrar na TV, de se apresenta no radio, esse recurso deveria servir para esclarecer o leitor, para que o mesmo pudesse analisar cada candidato, mensurar cada proposta, no entanto, o que se vê ou que se ouve é uma guerra entre marqueteiros que disfarçam as mentiras como verdades, e transformam as verdades em mentiras; e os meios de comunicação, que deveriam servir para esclarecer, acabam confundindo.
É leitor, ainda bem que hoje o cidadão brasileiro é muito mais consciente da sua função, o “voto de cabresto” é coisa do passado. Agora, cabe a cada um de nós, prestarmos atenção, analisarmos o que podemos ter de melhor de cada candidato; votarmos, pois esse ato significa acreditar na pessoa que vai comandar os rumos do nosso país nos próximos quatro anos, e seja o que Deus quiser.
Publicado no Jornal Itacoatiara em Pauta, 29 de outubro de 2010.